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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Murmúrio de Água


Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre…

Homem que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa…

Eugénio de Castro in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Mulher e menina


Sou assim pequenina
Metade mulher...metade menina...
Sou a menina que canta...
que brinca e ri...
Sou a menina
que corre pela calçada...despreocupada...
Sou a mulher que sonha em ser amada
Por um amor fatal...
Intenso, devastador...e verdadeiro...
Nao somente um amor carnal...
Um amor verdadeiro...
A alma gémea encontrada...
Menina ou mulher
Mulher ou menina
Que a vida ensina
A viver assim...
Mesmo que este viver
Seja um sonho sem fim...

By Celia Piovesan

terça-feira, 31 de maio de 2011

The special one (3º poema)

Porque a poesia é o meu refúgio, porque é eterna e intemporal. Porque me prende a alma, e amo as suas palavras soltas, perdidas no pensamento de quem as escreve... tão bela.... É amor, é dor, é alegria, é tristeza... é um mar sem fim de emoções e mistério.

"A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos humanos." (Rabindranath Tagore)
Deliciem-se com a leitura de mais um poema do meu livro...





Almeida Garrett Portugal
1799 // 1854 Escritor/Dramaturgo/Orador



Destino

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta «Florece!»
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?•
Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai!, não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino .
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

quinta-feira, 19 de maio de 2011

The special one

Ontem, chegada a casa após um dia cansativo no trabalho, encontrei por acaso um velho amigo de muitas horas… o meu livro de poemas de autores portugueses. Foi um livro que sempre me fascinou desde criança, e que agora, e cada vez mais ocupa um cantinho muito especial no meu coração. De muitos livros que tenho, este é ” the special one”. Era um livro de um tio meu, que também adorava ler e que guardo com muito carinho. É a primeira edição deste livro de 1964. As folhas estão soltas e amarelecidas pelo tempo…. E parece que assim o meu fascínio por ler uma e outra vez aqueles poemas é cada vez maior. Como tanto adoro esses poemas, resolvi partilhar convosco os que mais gosto. Hoje, partilho o 1º. Espero que apreciem a leitura.


Abílio de Guerra Junqueiro Portugal
1850 // 1923 Escritor/Poeta/Jornalista/Político




Morena
Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'